Há
muito tempo que queria pegar nas palavras e fazer delas texto, para
poder dizer que mesmo que tente mudar tudo aquilo que na minha vida
parece estar errado há uma coisa que acho que só por mim não consigo
mudar. Mas sempre achei ridículo o facto de voltar ao passado para me
habilitar a revi-vê-lo só por seguir a esperança de que ainda há uma
esperança de recriar aquele
fim. Hoje, acho que estou a tornar-me cobarde e quero entrar no mundo do
anonimato. Hoje, acho que para dizer o que sinto preciso de esconder o
que sou ou então o passado reconhece-me e volta para me fazer sofrer
como já fez.
Já
não sinto aquela vontade enorme de me sentar e transformar as minhas
histórias em filmes porque acho que há sempre dois lados e que não me
posso limitar a ver só o meu. Eu também erro. Talvez tenha encarado mal o
passado e não tenha visto o grande lado bom que ele teve. Foi ele que
me tornou naquilo que sou. Um passado fácil não me traria até aqui. Não
são histórias de fadas e princesas que fazem alguém crescer já fora da
infância. São as dificuldades que nos tornam mais fortes porque nenhum
de nós nasce preparado para a vida. Se assim fosse não valeria a pena
viver.
Custa-me
olhar para o outro lado da rua e sentir que apesar de continuar a ver o
que via, a forma como vejo as coisas já não é igual. No outro lado das
paredes havia alguém. Hoje só existe um conjunto de alguéns que não me
faz viver mas que simplesmente me mantém viva. Custa-me olhar à minha
volta e ver que mudei tantas coisas e que aquilo que realmente preciso
de mudar não está ao meu alcance. Custa olhar-me ao espelho e ver alguém
que perdeu a razão muitas vezes quando tinha tudo para seguir em frente
de cabeça erguida imune a qualquer punhalada que levasse pelas costas.
Difícil
ou não, só existe um mundo em que tenho de ser feliz e é nesse mundo
que tenho de tentar sê-lo. Por mais que crie mundos, só existe um único
mundo no mundo e esse mundo não é só meu. Por mais que tente esquecer o
passado, ele faz parte do que sou, é parte da minha vida e se não posso
voltar ao passado para o remediar, tenho de pelo menos lutar por criar
um novo fim. Há guerras que não valem a pena, mas se há uma de que não
posso desistir é a guerra pela minha felicidade e bem-estar.
Habituei-me
a sufocar-me no meu mundinho pequeno onde tudo era tão fácil e simples.
Por pouco tempo por dia que vivesse esse mundo, sentia-me bem,
sentia-me protegida num refugio onde tinha a certeza que nem os meus
piores pesadelos me podiam fazer mal. Lá era tudo tão fluido que quando
saia à rua o próprio som da chuva me parecia assustador. Já nem o sol
tinha o mesmo brilho. Aprisionei-me. Fui eu que tirei à minha vida
aquilo que não tive por ter escolhido esconder-me do tempo e escolher
que ele passasse por mim sem me dar coisas más ou coisas boas. Pior:
deixei voar as poucas coisas boas que tinha em mãos.
Hoje,
todas as coisas más que evitei estão a virar-se contra mim por só agora
ter saído à rua e talvez até tarde demais. E as coisas boas? As coisas
boas só podiam ser trazidas pelas pessoas que durante o seu tempo foram
boas para mim. A vida dessas pessoas continuou, mas a minha vida parou
quando eu própria decidi ficar parada no tempo enquanto depois me
questionava acerca do que tinha feito mal. Estive sempre a errar. A
errar como sempre errei e como sei que sempre vou errar. Mal de mim se
nunca errasse para pelo menos ter a possibilidade de aprender.
Estou
sempre a dizer que erro, sempre a dizer que cresço. Mas de que me serve
dizer isso se todos os dias continuo a errar e todos os dias continuo a
crescer? Não serão isso acontecimentos normais do ser humano? Nunca
experimentei ser normal, nunca soube o que era ser normal e talvez por
isso não saiba o que sou. Talvez me tenha tornado numa pessoa tão normal
que de repente se tornou invisível. Invisível: é exatamente assim que
me sinto. – Durante muito tempo tive atenção em demasia e não lhe dei a
devida importância. Hoje é ela que não me dá importância a mim.
Já
não tenho moral nem razão. No fundo só tenho de crescer e de me
encontrar no meio do nada. Acho que na verdade nunca soube quem era
porque nunca me achei suficientemente boa para olhar para o que era e
parar de querer mudar. Nunca estive bem com o que era e ainda hoje sei
que não é hora de por fim à minha corrida. As metas que achei que tinha
cortado, afinal eram apenas metas já cortadas por outros e a verdadeira
meta, apesar de estar ao meu alcance, está ainda muito longe do lugar
onde estou. Estou presa no nada, no meio do nada. Estou a descobrir-me.
Estou a conhecer o verdadeiro mundo e a vida real.

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