Lembro-me
de uma rapariga perdida entre opções, palavras e emoções. Lembro-me de
uma rapariga que muitas vezes não sabia que caminho seguir, que rumo dar
à sua vida. Lembro-me de uma rapariga que apesar de se achar ‘fraca’,
nunca desistiu daquilo em que acreditava e que quando desistia, era
porque já não tinha mais condições para sofrer, simples, não tinha mais forças. Lembro-me dela,
lembro-me de toda a sua vida como se todos os momentos, como se todos os
minutos, horas ou dias fizessem parte do dia de hoje. Sei quem ela é. Sei que sempre gostou de voar sobre as duas
asas da sua vida e que sempre gostou de se sentir segura à deriva
sabendo que havia uma âncora sempre presente. E essa rapariga sou eu...
Às
vezes tenho ainda dificuldades em saber o que fazer em certas
situações. Tenho muitas dificuldades em abandonar um objectivo pois nunca
aprendi a desistir e não sei qual a maneira certa para o fazer. É uma
matéria que não gosto. Nas alturas que mais preciso, as respostas não
chegam até mim. Espero, sem força, desespero. Mas as resposta não
chegam. Fraca demais para ir em busca delas, lamento-me pelo que fiz e
pelo que não fiz. Tantos porquês, tantos ses na vida. Neste corpo sei
que tenho uma só vida e quero deixa-la marcada pelo bem e não pelo
desespero, pela desistência ou pelo fracasso. O lado negro da vida não
faz parte de mim e talvez não faça mesmo parte de ninguém.
“Depois
da tempestade vem o arco-íris.” Sim, o arco-íris é lindo, mas se não
tivesse chovido à momentos atrás, haveria arco-íris? Há frases, pessoas
que nos fazem pensar. Há casos de vidas perdidas, desperdiçadas; vidas
sofridas. Há casos de pessoas que não vêm. Há pessoas que não conseguem
sorrir, mas todas as pessoas têm a capacidade de amar. Eu sorrio, vejo e
oiço tudo aquilo que me dizem. Vejo mal, mas vejo. Custa-me a crer que
tenha vivido certas coisas, pois quando olho para o passado vejo que
tudo tinha uma solução – fácil ou difícil – uma solução. No momento
certo não oiço, não vejo, mas sinto tão intensamente a palavra amar que
todo o resto não tem importância.
Quantas
foram as vezes em que disse ‘já chega!’ mas voltei à mesma estaca?
Quantas foram as vezes em que dizia que ia lutar e me apercebia que já
não tinha mais força? De tanto sofrer, de tanto viver, aprendi que se
tanto vivi é porque a vida tem muito para me ensinar e não são marcas na
vida que vão acabar com ela, pois a vida continua. Temos de passar ao
lado de certas coisas: de olhos bem abertos, mas sem dar muita
importância com os olhos do coração. Às vezes a coisa certa a fazer é
imaginar que o coração é outra pessoa (que vive, respira e sofre), que
não faz parte de nós, às vezes devemos usar a cabeça não só para as
situações de cálculo ou de leitura, mas sim para pensar no lugar do
coração.
Atitudes
que se evitariam, dias que se apagariam… quem não gostaria de voltar ao
passado para remediar os erros, começar de novo ou criar um novo fim?
Tantos, talvez todos nós. Quem não gostaria de ter aprendido com os
erros dos outros para não cometer erros idênticos mais sentidos e mais
sofridos? A
sabedoria seria só papel, páginas douradas que muitas pessoas desejariam
ler, mas quantos não desejariam queima-las ou rasga-las para poderem
defender as suas próprias ideias? O certo a fazer era deixar que essas
páginas ardessem, pois as páginas arderiam, mas a sabedoria resistirá
sempre. A vida é o maior sábio do mundo e só com quem possui mais
sabedoria podemos aprender. Logo, com a vida.
São
muitas vírgulas, muitos pontos finais durante poucos anos que parecem
por vezes equivaler aos anos de alguém que já bem velho faleceu. A minha
vida não acabou. Sinto que ainda tenho muito para dar, muito para
receber, muito para aprender. Sou só um ponto num mundo, estou num só
pequeno ponto do mundo. Quero viajar por todos os outros pontos do mundo
em páginas douradas como a sabedoria. Quero conhecer
várias cores de páginas, escolher as palavras certas das cores certas e
criar a minha própria cor.
E assim a minha vida continua
« Nunca se deixa de querer a pessoa por quem
realmente se esteve apaixonado. Só se pode aprender a viver sem ela... »
Sabia que um dia, mais tarde ou mais cedo me iria aperceber se aquilo que há muito tempo se diz é verdade ou não, se ‘quando se ama, ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente’. Tinha curiosidade, tinha imensa vontade em encontrar a minha resposta. Bem, as ‘lendas’ muitas vezes fazem parte da realidade. E a minha vida? A minha vida é um conjunto de lendas, pois a cada dia aprendo e desaprendo, sorrio e choro, mas aprendo sempre mais uma palavra ou mais uma forma se caminhar em direção ao ponto certo.
Sonhos vs. realidade. O tempo é o nosso melhor amigo. Faz-nos esperar, faz-nos desesperar, mas é o tempo que trás até nós as pessoas que conhecemos, as alegrias que temos, tudo aquilo que nos fez sorrir - não só o que nos fez sofrer...
É verdade que sempre que se fecha uma porta outra se abre, é verdade. Pode não se abrir uma porta do mesmo tamanho, do mesmo material, mas abre-se uma porta que nos leva até um paraíso desconhecido chamado continuação da vida, que nos dá respostas que sem portas abertas não seriam encontradas.
As minhas respostas não são nítidas, não são exactas e nem sequer sei se são certas, mas vejo-as ao longe. Sinto que a cada dia me aproximo mais das respostas de que tanto preciso. Para já, enquanto não tenho nas mãos essas respostas, tenho de prometer a mim mesma que vou chorar uma, duas vezes se voltar a sofrer, mas que depois me vou levantar; que vou sorrir sempre que puder, encarar as coisas de uma forma positiva, viver o dia-a-dia intensamente e sobretudo ser fiel a mim mesma. Tenho na mente sombras do que quero ser, do que quero seguir, daquilo que quero ou que vale a pena correr para ter. Mas sombras não são factos e só os factos me dizem por que rua seguir. Até lá, serei sempre aquela que com duas asas e uma âncora sobreviveu.
''Quando pequena eu rodava, rodava e rodava em torno de mim mesma até ficar tonta e cair. Cair
não era bom mas a tonteira era deliciosa. Ficar tonta era o meu vício.
Adulta eu rodo mas quando fico tonta aproveito de seus poucos instantes
para voar...''
Clarice Lispector
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